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terça-feira, julho 20, 2004
  Ruminando e deixando a vida passar ...
            Ele nunca havia tomado um susto tão grande como naquela manhã , quando ao se levantar da cama não conseguia dar um passo sequer, mas não imaginava ainda o que estava por vir. O equilíbrio de seu corpo sobre as duas pernas havia se tornado algo impossível, e para andar poucos metros percebeu que precisava andar de quatro!!! Como não tinha outro jeito, decidiu ir até o banheiro nessa posição para jogar uma água no rosto e ver se não podia ser um mal-estar passageiro que ocasionava uma tontura. Ao chegar ao banheiro e conseguir se apoiar e abrir a torneira da banheira, por estar numa posição baixa tomou um susto ao olhar para a porta: lá estava, parado imóvel, um grande jumento que simplesmente repetia todos os seus movimentos. Na hora pensou, ele, que aquilo só podia ser um sonho, como aquele que tivera há mais ou menos uma semana em que estava totalmente nu no meio da rua, fazendo-o acordar no meio da madrugada em estado de pânico; mas não, aquilo era real demais para ser um simples sonho. O pior ainda estava por vir quando ele caiu em si que na verdade o que havia atrás da porta era um espelho, e se ele via um jumento que repetia seus movimentos atrás da porta... então ele havia se transformado num jumento !!! Não era possível, aquilo era demais para acreditar!!!!! Ele então parou, e como um típico jumento racional que pensava como ser humano, decidiu procurar uma explicação. Numa rápida regressão ele pensou e se lembrou, espantado, de quantas vezes na vida ele havia perguntado a si mesmo se na verdade ele não era um jumento!!! É que diariamente ele se sentia como o referido animal !!! Se sentia um jumento cada vez que abria o jornal pela manhã, repleto de escândalos e baixarias políticas; se sentia um jumento toda vez que tentava ajudar alguém e este mesmo alguém era quem o ferrava tempos depois; se sentia um jumento em cada segundo de televisão a que assistia; se sentia um jumento em cada amizade falsa que nada mais era que um jogo de interesses; se sentia um jumento em quase todas as conversas que escutava e participava; se sentia um jumento sempre que percebia que as coisas dependiam muito mais de fatores externos ( e muitas vezes sem um valor real ) do que de seus próprios esforços para dar certo;se sentia um jumento ao analisar a real natureza Humana;  e se sentia mesmo um jumento quando achava que um dia tudo isso poderia mudar; as pessoas pudessem se tornar melhores umas com as outras e ele pudesse se tornar melhor com os outros. Enfim, ele havia achado a explicação para o que acontecera: ele, na verdade, havia sido um jumento por toda a vida... sendo assim, numa noite seu corpo se rebelou e decidiu assumir de vez a identidade real.
            Mas o que fazer agora ??? Decidiu descer as escadas e explicar a alguém o que havia acontecido, mas já no primeiro degrau, sua inexperiência com os cascos o fez escorregar e descer escada abaixo, fazendo um "tropé" inimaginável. Então ,começou aquela confusão: cachorro latindo, empregada ligando para os bombeiros, seu irmão tentando enxotá-lo para o quintal. Ele tentava explicar quem era mas já era tarde...saiam apenas relinchos de sua boca. Como tudo estava perdido mesmo, saiu num galope daqueles de filme de bang-bang, sumindo de vista para a saída mais próxima da cidade.
             Anos depois, diz a lenda que um velho adotou um jumento que fora muito prestativo e grande companheiro; tão companheiro que após algumas pingas o velho jurava pelos balcões de boteco que ouvia alguns relinchos que lembravam palavras , inclusive os últimos relinchos soltos pelo animal antes de sua morte, que numa expressão feliz, parecia dizer como era boa a vida sem preocupações, apenas ruminando e deixando a vida passar ...

 
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